Uma Cronologia das Maiores Civilizações da Mesoamérica
Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho | 19/02/2025 | HistóriaA escrita. Esta aliada, que surgiu, primeiramente, com os sumérios há cerca de cinco mil ou cinco mil e quinhentos anos, nem sempre esteve presente em todos os grupos autóctones, mesmo que tivessem emergido posteriormente. Afinal, aglomerações humanas, em razão das distâncias geográficas e da ausência dos naturais contatos que seriam decorrentes, possuíam e possuem diferentes níveis de desenvolvimento. Por isso, na ausência da escrita, deve-se verificar, na reconstituição da cronologia humana, os demais aspectos já provados e comprovados. E disso não estão excluídas as civilizações da Mesoamérica, cuja única escrita, hieroglífica, já decifrada é a dos maias.
Erram aqueles que dizem terem sido Colombo e sua esquadra os primeiros humanos a se estabelecerem na América. No México, na América Central e na América do Sul já havia povos avançadíssimos, como os astecas, os maias, os olmecas e os incas. Outros, menos sofisticados, sedentarizaram-se no oeste do Canadá e dos EUA, e em grande parte do Brasil. Neste artigo cindirei-me, especificamente, na tentativa de cronologização do surgimento dos astecas, dos maias e dos olmecas.
Os seres humanos surgiram na África há cerca de oito milhões de anos. Nos últimos cinquenta mil, a Evolução nos fez tais como somos hoje (e ela, a Evolução, não cessa). De lá, os humanos foram se expandindo ao redor do globo, em direção aos continentes com que aquela massa de terra tinha, e ainda tem, alguma ligação terrestre (Europa e Ásia). Naquele primeiro sinal de globalização, nunca um humano tinha posto os pés na América, desde o norte do Canadá até o sul da Argentina e do Chile. Mas ocorreu um momento, durante a última Era Glacial, em que foi possível atravessar o Estreito de Bering, que separa o leste da Rússia e o oeste do Alasca. Uma passagem sólida de gelo se formou há por volta de vinte mil anos, e permitiu a passagem de grupos humanos, que, com o passar destes quase duzentos séculos até a chegada de Colombo, lentamente rumaram em direção so sul do continente. Naquela migração grupos acompanharam os respectivos avanços geográficos, e outros permaneceram pelo caminho, estabelecendo neste hiato suas próprias civilizações, como os indígenas do oeste dos EUA. Mas, entre os que avançaram, surgiram, no decorrer dos deslocamentos até a América do Sul, as mais famosas civilizações pré-colombianas: os astecas, no centro do México, os olmecas, no sul do México, e os maias, também no sul do México, na Guatemala, em El Salvador, em Belize e em Honduras.
Agora, surge a grande questão: o fato de os astecas estarem localizados mais ao norte significa, necessariamente, que tenham surgido antes dos olmecas, e estes, antes dos maias? Não. Nada prova que uma civilização tenha surgido antes de outra pelo fato de estar, geograficamente, mais em um extremo terrestre em direção ao ponto de migração comum. É preciso analisar outras vertentes, como os vestígios arqueológicos, a exemplo da datação por carbono 14 (que, confesso, não sei se ainda é utilizada) e as marcas naturais delatoras de rituais religiosos. Trago, aqui, o exemplo do Cacau. A América é o continente de onde a iguaria é originária. Geograficamente, antes de os seres humanos interferirem na Evolução e na Seleção Natural da Vida Vegetal, dita planta era encontrada, somente, desde o extremo sul do México até a América do Sul. O maior indício é que a maior parte dos especialistas pertence à corrente que afirma ter sido a bebida consequente, que denominamos chocolate, utilizada em rituais sagrados pela primeira vez pelos olmecas, apesar de estabelecidos mais ao norte que os maias. De qualquer forma, dá-se por provado o contato entre os olmecas e os maias depois de formalmente estabelecidas ambas as civilizações, eis que a religião é um fator determinante do que se entende por “civilização”.
Não obstante, temos um novo problema: as datações informam que os olmecas existiram desde o ano 1200 a.C. até 400 a.C., ao passo que os maias de 2000 a.C. até a Conquista Espanhola, no século XVII. Ou seja, os maias surgiram antes e desapareceram após os olmecas, o que pode evidenciar um extermínio destes últimos por parte dos maias, que, na referida ocasião, teriam incorporado o chocolate como bebida sagrada, o que não comprova terem sido os sacrifícios humanos nos cenotes (mormente com vasos de luxo) também terem lhes sido repassados por aqueles. Quem, provavelmente, ensinou a tradição dos sacrifícios humanos? Os olmecas ou os maias? Independentemente da resposta, o chocolate também foi repassado como bebida sagrada, assim como os sacrifícios, entre os astecas, cuja civilização subsistiu, nos mais remotos registros, de 1300 até a sua destruição pelas tropas do espanhol Hernán Cortês, em 1521. Se os maias sobreviveram aos olmecas (que perduraram, quando muito, até centenas de anos antes de Cristo), que provavelmente lhes transmitiram o hábito relativo à bebida sagrada, é bem mais verossímil que tenham sido eles, os maias, a incorporar aos astecas esta tradição (como bem demonstrou seu último Imperador, Cuauthémoc), bem como a dos sacrifícios humanos e da construção de pirâmides cujo objetivo era a adoração dos deuses do topo, por, assim, se estar mais próximo a eles (ao revés das pirâmides egípcias, que eram e são enormes túmulos, constituintes de necrópoles).
Continuo convicto de que a História é a mais fascinante e sensacional de todas as ciências. Não somente as humanas, mas todas. Apenas, simplesmente, pelo fato de, na sua constituição, estarem englobadas todas as ciências.