A Qualidade do Ensino Superior Angolano e a Culpa dos Estudantes
Por Eugénio Joaquim Próspero | 26/02/2025 | EducaçãoA Qualidade do Ensino Superior Angolano e a Culpa dos Estudantes
Introdução
O ensino superior em Angola tem sido alvo de debates sobre sua qualidade e eficiência na formação de profissionais capacitados para o mercado de trabalho. O crescimento do sector universitário nas últimas décadas trouxe desafios como a carência de infraestrutura, a falta de professores qualificados e a necessidade de actualização curricular. No entanto, além das falhas institucionais, há uma questão muitas vezes ignorada: até que ponto os próprios estudantes também contribuem para essa crise educacional?
O Estado do Ensino Superior em Angola
Após a guerra civil, Angola testemunhou uma rápida expansão do ensino superior, com a criação de universidades públicas e privadas em várias províncias. No entanto, essa expansão não foi acompanhada por um fortalecimento proporcional da qualidade educacional.
Os principais desafios incluem:
Infraestrutura inadequada – muitas instituições carecem de bibliotecas bem equipadas, laboratórios modernos e espaços apropriados para a prática acadêmica.
Deficiência na formação docente – muitos professores não possuem qualificações avançadas, como mestrados e doutorados, o que impacta a qualidade da aprendizagem.
Currículos desactualizados – muitos cursos não acompanham as demandas do mercado de trabalho e da evolução científica global.
Falta de incentivos à pesquisa – a produção científica ainda é limitada, pois há poucos investimentos e estímulos à pesquisa acadêmica.
Embora esses fatores sejam amplamente discutidos, o papel dos estudantes na construção da sua própria formação acadêmica é um aspecto muitas vezes negligenciado.
A Responsabilidade dos Estudantes na Qualidade do Ensino
Mesmo diante dos desafios estruturais, os estudantes também têm um papel fundamental na busca por um ensino superior de qualidade. Algumas atitudes dos próprios alunos acabam comprometendo sua aprendizagem:
Desinteresse pelo conhecimento – muitos alunos vêem a universidade apenas como um caminho para obter um diploma, sem verdadeiro compromisso com a aprendizagem.
Falta de hábitos de estudo – a cultura da leitura e da pesquisa ainda é fraca entre muitos estudantes, o que limita sua capacidade de aprofundamento acadêmico.
Dependência excessiva dos professores – ao invés de serem protagonistas do próprio aprendizado, muitos alunos esperam que o professor forneça todas as respostas prontas.
Falta de ética acadêmica – a prática do plágio e a busca por atalhos, como a compra de trabalhos acadêmicos, a fraude (cábula) são problemas recorrentes que comprometem a formação dos futuros profissionais.
Pouca participação em actividades extracurriculares – eventos acadêmicos, palestras e grupos de estudo são oportunidades para aprofundar o conhecimento, mas são muitas vezes ignorados pelos estudantes.
Caminhos para Melhorar a Qualidade do Ensino Superior
Para que a qualidade do ensino superior em Angola melhore, é necessário um esforço conjunto entre governo, universidades e estudantes. Algumas medidas essenciais incluem:
1. Investimentos estruturais – o Estado e as instituições privadas devem melhorar as condições físicas das universidades.
2. Capacitação docente – os professores precisam de formação contínua para acompanhar os avanços científicos e pedagógicos.
3. Revisão dos currículos – os cursos devem ser actualizados para atender às exigências do mercado e às novas tendências acadêmicas.
4. Fomento à pesquisa – bolsas de estudo e incentivos financeiros podem estimular a produção científica.
5. Mudança de mentalidade dos estudantes – é essencial que os alunos assumam um papel mais activo na sua formação, desenvolvendo autonomia e compromisso com os estudos.
Conclusão
A crise no ensino superior angolano não pode ser atribuída a um único factor. Enquanto o governo e as universidades têm responsabilidade na infraestrutura e na qualidade da educação, os estudantes também desempenham um papel fundamental no próprio aprendizado. A mudança só será possível quando houver um esforço colectivo para transformar a cultura acadêmica do país. Afinal, um ensino superior forte depende tanto de boas instituições quanto de alunos comprometidos com o conhecimento.
Por: Eugénio Joaquim Próspero (Advogado)