ILARI, Rodolfo. Linguística e Ensino da Língua Portuguesa. Disponível em: Portal da Estação da Luz da Língua Portuguesa; Texto 29. IEL/UNICAMP.

JOSÉ MARIA MACIEL LIMA[1]

O texto de Rodolfo Ilari traz uma discursão sobre o ensino de língua materna no Brasil, enfatizando suas principais mudanças, evidenciando os principais paradigmas (Estruturalismo, Gerativismo e Funcionalismo) que contribuíram para o avanço da linguística, destacando as transformações ocorridas durante o século XX, que foram determinantes para uma modificação no ensino da linguagem.

Anterior a essas teorias introduzidas pela linguística, o ensino de língua materna, baseava-se em um ensino pautado na gramática normativa que considerava (e considera) a língua como um objeto homogêneo desprovida de quaisquer tipos de variação. Além disso, não se valorizava as questões pragmáticas discursivas, ou seja, não se tinha bases teóricas para trabalhar a gramatica do texto. Trabalhava-se apenas a gramatica da norma.

Neste enfoque, o autor inicia o texto discutindo em uma perspectiva histórica o ensino de língua materna no Brasil desde 1960 até os dias atuais, enfatizando, como já foi dito, seus momentos mais importantes. Desse modo, destaca a grande contribuição de Mattoso para o ensino de língua, que ainda é referenciado como exemplo de um dos grandes teóricos da linguística da língua portuguesa no Brasil.

De acordo com o autor, as abordagens de Mattoso sobre o ensino de língua em na perspectiva variacionista foram decisivas na democratização do ensino, pois promoveu o ingresso maciço de crianças e adolescentes das classes populares numa escola até então fortemente elitizada, que considerava apenas a norma culta da língua, marginalizando outras formas de realização da linguagem consideradas fora do padrão normativo.

Após essas considerações, o autor traça uma abordagem sobre a gramática e a filologia enfatizando as mudanças ocorridas nos cursos de letras a partir da década de 60 com a introdução da linguística como disciplina obrigatória no currículo dos referidos cursos. A partir dessa nova configuração, os cursos de letras reconhecem a linguística como uma disciplina essencial, sobretudo para os professores de Ensino Fundamental e Médio, pois contribuiu para uma compreensão mais completa de alguns fatores que até pouco antes da linguística eram conhecimentos alheios aos docentes de língua materna.

Neste sentido, uma das contribuições desse novo panorama linguístico brasileiro é o reconhecimento da língua como um objeto heterogêneo que varia no tempo e espaço, de falante para falante e ect. que, até então, outras formas de realização da linguagem que não estivesse de acordo com o padrão, eram desprivilegiadas pelos gramáticos que “supervalorizavam” apenas a norma padrão, ou seja, a língua falada pela elite dominante – a língua de poucos, a dos afortunados.

Outro fator importante de que trata o texto, diz respeito à aplicação das novas teorias da linguagem introduzidas no século XX - a linguística aplicada ao ensino de língua, que tem contribuído bastante, sobretudo, quando se trata de alfabetização e letramento, leitura, interpretação, analise e produção de textos, que de acordo com o autor não “se aplica ao exercício tradicional da redação escolar, mas abrange, além disso, vários outros gêneros textuais em que o educando e o educador podem trabalhar juntos” (p. 7). Talvez essa seja uma das contribuições mais importante de todas as outras, uma vez que ela, inclui as várias forma de realização da linguagem, logo inclui também, a diversidade linguística que é intrínseca às línguas.

Portanto, trabalhar dessa forma, é promover o ensino em uma perspectiva plural, é incluir e aproveitar para o processo de aprendizagem todas as formas de realização da língua, é trabalhar a linguagem em uma perspectiva pragmática discursiva, é respeitar a linguagem do outro, é educar os alunos linguisticamente para empregar a língua em diversas situações de comunicação, onde se encontra seus interlocutores, é promover a competência comunicativa no indivíduo. Em síntese, é fazer a diferenças.

A partir dessas mudanças no currículo, à concepção da língua como única e invariável foi derrubada pelos linguistas, através de várias pesquisas na área. Apesar de ter sido um processo difícil e longo, mas é a partir disso que se concebe a língua como heterogênea – sujeita a variação e mudança. Neste sentido, o texto nos mostra como a linguística contribuiu e tem contribuído para o ensino de língua materna. Embora saibamos que muito ainda precisa ser feito para que o ensino de língua materna surta o efeito desejado e cumpra o objetivo principal do Ensino da referida disciplina que é: promover a competência comunicativa do educando.

Porém, sabemos que apesar de todos esses avanços, de todas as contribuições que linguística trouxe para o ensino de materna, ainda conviemos com graves problemas em relação ao trabalho com a linguagem em sala de aula. Há ainda, uma supervalorização do ensino de Gramatica Normativa. Embora saibamos que o ensino da Gramatica é importante, porém o professor não deve fazer dele o fim para o ensino de língua, mas, sim o começo para um ensino crítico e reflexivo sobre a linguagem.

A meu ver, para que o ensino de língua aconteça como deveria, seguindo as orientações dos PCN de língua portuguesa é preciso uma mudança de atitude em relação à postura e as técnicas de ensino do professor. E isso exige esforço, conhecimento e técnicas para aplicação dessas “novas” teorias introduzidas pela linguística do século XX. Cabe a seguinte pergunta “será que o professor de Língua sai da academia preparado para fazer uso dessas teorias?” É claro que existem as exceções! Não podemos generalizar! Mas, não cabe aqui acharmos os culpados pelo fracasso do ensino de língua. Porém, faz-se necessário refletir sobre essas questões.

Muito se tem a discutir sobre o assunto, mas o gênero aqui, não permite alongar-me. Por isso, vou finalizar dizendo que: algumas academias oferecem subsídios teóricos suficientes para o aluno aplicar as teorias, outras nem tanto. Porém, o que é mais previsível de acontecer neste caso, é que o professor parece achar mais fácil trabalhar na perspectiva gramatical (falo isso baseado nas minhas experiências como professor de língua portuguesa, observando os colegas e, também deu para perceber isso durante o estágio supervisionado). Pois os exercícios baseados em normas fixas da linguagem parecem ser mais fáceis de ser executados, além do mais, já estão protos, às vezes, há várias décadas. Já trabalhar a gramatica do texto é mais complexo exige um esforço intelectual do professor, exige disposição para elaboração de atividades que comtemple práticas discursivas diversas. Não quero transparecer pessimista, mas isso ocorre por vários fatores, só vou dar um exemplo, o baixo salário do professor, que para ganhar melhor acaba por submeter-se a uma carga horária alta, assim não lhe sobra tempo para elaborar seu material, que sabemos perfeitamente, que exige tempo. Mas, sabemos que é possível trabalhar de acordo com as novas teorias vigentes sobre o ensino de língua, é possível fazer a diferença, basta queremos.  



[1] Professor da rede Estadual de Ensino, Licenciado Pleno em Letras/Português - UFPA, Letras/Espanhol-UNIUBE, Letras Inglês-UFOPA, Graduado em Filosofia pela FPA, Especialista em metodologia de Ensino de Filosofia e Sociologia-UNIASSELVI e Ensino de Língua Espanhola-UNICAM. E-mail: [email protected].   

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