Dia 11.5.2001, por volta de onze horas o Delegado Natal Dornsback  chegou na “Assistência Jurídica” situada no prédio onde funcionava a Delegacia-Geral da Polícia Civil para me fazer um bate-papo.  Ele já havia telefonado cerca de uma hora antes para dizer que estava na Capital e queria me visitar.  Fiquei contente com a visita do amigo que estava mais magro, trajando uma camiseta pólo azul, com ar  esportivo, apesar de seus cabelos mais grisalhos. Natal disse que passou pela Junta Médica pois havia terminado sua licença. Deu a impressão  que havia melhorado  de seus problemas psicológicos e que foi aconselhado a voltar a trabalhar ou se aposentar. Arrematei que a situação dos Delegados Especiais era muito triste, que ser Delegado Especial era como ir para um cemitério reservado para elefantes, pois não havia  valorização hierárquica, profissional, ética, respeito..., tampouco espaço, como se fossem indesejáveis, estorvo..., enquanto os políticos preferem os  mais novos que usam de habilidades e adulações  nos planos estratégicos e promocionais, em especial para ocuparem postos  comissionados ou bons locais de lotação ou designação,  criando empecilhos para reformas  na instituição... Aproveitei para citar  como exemplo o Delegado Regional de Chapecó (Alex) que era início de carreira, enquanto que ele e outros mais antigos e graduados mofavam.  Argumentei que um Delegado Especial já calejado e experiente não se sujeita a pedir favores a políticos, empresários e a outras lideranças, especialmente, porque conseguiu um nível de estabilidade, dignidade e comprometimento com a instituição. Natal, sem parecer se fixar muito no que eu estava dizendo deu a impressão que concordava com tudo que estava sendo dito, reforçando em meus pensamentos esse processo de mitigação a partir da sua imagem que retratava  o descaso do governo para com as questões institucionais prioritárias e nossos valores. Lembrei da façanha de Heitor Sché (Delegado de Polícia, ex-Deputado Estadual e SSP/SC), que foi responsável pela emenda que revogou a obrigatoriedade do Chefe de Polícia ser escolhido dentre os mais graduados. Relatei episódios da constituinte (1989). quando visitamos  parlamentares, a exemplo o ex-Deputado Jorge Gonçalves para pedir apoio às nossas emendas, como a que dizia respeito à direção  da Polícia Civil,   tendo o constituinte  chamado  a atenção para o trabalho de Delegados  que pediam justamente o contrário, ou seja, que a escolha do Chefe de Polícia devesse recair sobre todos os Delegados e não só sobre os finais de carreira. Nossa proposta foi bem sucedida e passou a integrar o texto constitucional.  Disse para Natal que achava que a investida de Heitor Sché na verdade foi motivada por um pedido especial do Maurício (na época ligado à Sché). Depois de mais de uma década Heitor Sché conseguiu alterar a Carta Estadual como defendiam nossos opositores, assegurando que qualquer Delegado de Polícia pudesse alçar o cargo de Delegado-Geral, entretanto, acabou dando tudo errado para Maurício, pois  apesar de ter conseguido sua promoção para “Especial”, em razão da mudança da CE, o Delegado Lipinski (seu concorrente), valendo-se dessa “reforma “ acabou se servindo  da emenda “Sché”, vindo a ser  o escolhido pelo Promotor de Justiça  Chinato (SSP/SC) para o cargo de Delegado-Geral (2001), já que não precisava mais estar no no último patamar da carreira como queriam antigamente alguns Delegados. Depois dessa conversa, lembrei que desde as eleições da Adpesc que queria falar com ele e  agradecer o único voto que tivemos na região oeste. Natal comentou: “... eu estava lá no dia da votação e logo que saiu o resultado com um único voto para a chapa do Mauro Dutra o Alex disse que ‘só pode ser o voto do Natal, que votou contra nós,’ eles sabiam tudo...”.  Argumentei que Mário Martins, além de ter a máquina na mão, teve o apoio do Gabinete e da Delegacia-Geral. Também,  disse que com o resultado ficou demonstrado que Maurício Eskudlark não tinha  liderança  perante os Delegados Regionais.  Relatei que segundo soube por meio do próprio Mauro Dutra o Maurício teria feito  “corpo mole” na reta final.  Natal comentou que Maurício agora estava no PSDB, havia deixado  o PFL. Argumentei que para ele foi  melhor, pois vai precisar de menos votos para se eleger deputado estadual e citei como exemplo o caso  do Delegado-Deputado João Rosa. Depois Natal comentou que os policiais do oeste estavam reclamando do Delegado-Geral  Lipinski porque estaria  ‘puxando demais as suas orelhas”, inclusive, tendo deixado a Capital para  ir especialmente a Chapecó para chamar a atenção de um Investigador Policial envolvido  numa  rifa para arrecadar dinheiro para um filho que está muito doente (tumor no cérebro).  Natal disse que ajudou esse policial civil  com a quantia de cinqüenta reais.    Natal comentou que  Lipinski estava se apegando  a esse tipo de coisas,  controle de viaturas na garagem, reformas físicas na Delegacia-Geral,  pinturas,  computadores,  chamar atenção de policiais...  Em seguida... para nossa surpresa chega Lipinski acompanhado de Moacir Bernardino... E para nossa surpresa, falando no “homem”, o  Delegado-Geral Lipinski surge do nada, entra na ‘Assistência Jurídica’ e me cumprimenta, mas já olhando para Natal que com habilidade logo chama a atenção para sua barriga bastante saliente, soltando estar: “...mas o homem tá cada vez mais gordo...”.  Procurei me manter calado, não só pelo meu estado gripal, mas pensei que estava sendo providencial  a visita de Natal.  E a conversa transcorreu entre os dois em clima de cabalherismo e amenidades. Para mim era um esforço extraordinário conseguir fixar-me em Lipinski  que dificilmente olha nos olhos da pessoa e quando o faz fica sempre uma impressão mista que orbita entre o “transfixante e a vaguidão”.  Antes de sair, Lipinski me pediu  um decreto do Governador Amin que tratava sobre afastamento para freqüentar curso de pós-graduação. Também me questionou se  vieram todos os livros solicitados anteriormente, recomendo que me  restabelecesse da gripe, nessa hora  sem aquele olhar..., mas contorsionando seu corpo e falando ao mesmo tempo que deixava o recinto, sendo seguido por  Natal que foi se apresentar à Delegada Sandra Mara Pereira que substitui Maurício Eskudlark na Diretoria de Polícia do Interior. Antes de sair Natal disse  que iria tomar um café com Lipinski no seu Gabinete. Avisei que o esperaria para almoçarmos juntos.

 Dia 23.12.2002 estava em Chapecó e Natal me fez um convite irrecusável: jantar na sua residência. Telefonou para a esposa dizendo que se tratava de uma visita importante e pediu que ela fosse comprar a carne para o churrasco.  Depois de algum tempo, isso por volta de vinte uma horas e trinta minutos cheguei na  na residência de Natal para o compromisso, em cujo local  também estavam Celeste (esposa de Natal), Emiliano (filho e que na época cursava faculdade de Direito) e Hiolanda (filha adotiva). Mais tarde veio Fernanda (namorada de Emiliano). Sem falarmos mais sobre assuntos policiais ficamos reunidos fraternalmente até próximo à meia-noite. Soube que Emiliano leva o nome em homenagem a Zapatta, herói do México...  Entre goles de cerveja e as carnes no ponto conversamos sobre Direito,  eu procurando ser leve nas  pegadas até para não quebrar o encanto de um jovem universitário que sonhava e acreditava na Justiça, logicamente como eu nos tempos de faculdade, entretanto, descobri bem mais tarde uma verdade  adversa...

*Do Livro sobre memórias da Polícia Civil/SC.

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