Introdução

O presente trabalho tem como tema “Giodarno Bruno e a doutrina da metafísica sobre o infinito” Bruno é um Filosofo renascentista considerado mais complexo, com a sua visão vitalista e mágica. A marca que distingue seu pensamento é de carácter mágico-hermenico, que não pode ser entendido como uma gnose renascentista, mensagem de salvação neoplatonicamente marcado pelo tipo de religiosidade “egípcia” Ele, portanto, não podia estar de acordo nem com os católicos e nem com os protestantes, e por fim não se pode dizer se quer cristão, porque acabou pondo em dúvida a divindade de Cristo e os dogmas fundamentais do cristianismo.

O trabalho tem como objectivo geral reflectir a doutrina da metafísica sobre o infinitoem Giodarno Bruno. E tem como objectivos específicos; apresentar sinteticamente a vida e obras do autor; analisar o conceito do universo em Giordano Bruno; e por último explicar sobre o conceito do universo infinito.

A pesquisa está organizada em subtema, onde no primeiro a bordar-se-á sobre a vida e obras do autor. No segundo vai-se falar sobre o universo bruniano e o seu significado. Na concepção bruniana, o universo é considerado como um todo onde todas as coisas se movimentam, inclusive a terra. Porém, esse movimento é produzido pela própria estrutura cosmológica do universo. Bruno acredita que todas as coisas contidas no universo possuem uma alma, sendo essa alma “o princípio vital”, a fonte, a origem, e a causa do movimento. No terceiro e último capítulo, vai-se tratar sobre o universo infinito.

No entanto, Bruno considera o universo como infinito, contudo, existe diferença entre infinitude de universo e a infinitude de Deus. Segundo Bruno, o universo é todo infinito por não possuir limite, mas totalmente infinito, pois é constituída de partes infinitas, e os mundos neles constituídos também o são infinitas. Deus é em si mesmo infinito e os seus atributos também. Portanto, pode-se afirmar com Bruno que Deus é totalmente infinito por causa dos seus atributos infinitos e por estar ele inteiramente no todo e cada uma das partes. Para a realização do presente trabalho usar-se-á a pesquisa bibliográfica, interpretativa em diversas obras ligadas ao tema, mormente, a leitura e pesquisa dos principais subtemas inerentes ao problema levantado no trabalho. Simultaneamente, empregar-se-á como técnicas: hermenêutica - que consiste na leitura e interpretação de textos filosóficos.  

2.Vida e obras de Giodarno Bruno

Giordano Bruno nasceu em Nola, em 1548. Seu nome de batismo era Filipe, o nome de Giordano lhe foi dado quando, ainda muito jovem ingressou no governo de são Domingos, e Napoles, onde foi ordenado sacerdote 1572. A partir de 1579, Bruno viveu na França, primeiro em Tolosa, por dois anos, e 1981 em Paris, onde conseguiu atrair atenção de Henriques III. Em 1583 foi para Inglaterra, a acompanhando o embaixador Francês vivendo sobretudo em Londres.

Esteve também em Oxford, mas entrou em choque com alguns docentes da universidade. Em 1590, foi para Frankfurt, onde publicou a trilogia dos seus grandes poemas latinos. Em 1596 foi para Alemanha, onde terminou os seus poemas latinos. Depois aceitou o convite de patrício veneziano Giovani, que desejava ser instruído por ele na arte mágica, e dirigiu-se para Veneza. Foi denunciado e preso pela inquisição de Veneza aos 23 de Maio de 1592. Em 1593, Bruno foi transferido para a inquisição de Roma, onde ficou encarcerado durante 7anos.

E, foi submetido a novo processo, depois de várias tentativas de convence-lo a retratar-se de algumas de suas teses, chegou-se a uma ruptura final com sua condenação a morte na fogueira. E no dia 7 de Fevereiro foi queimado vivo nos campos das Flores, em Roma. 

3. Breve contextualização do pensamento Bruniano

Segundo Reale & Antiseri (2004-113), a marca que distingue o pensamento bruniano é de carácter mágico-hermético. Bruno se coloca na trilha dos magos-filósofos renascentistas levando muito adiante o discurso que Ficino cautelosamente iniciara, procurando manter-se dentro dos limites da ortodoxia cristã, mas que tratou de levar às últimas consequências. E mais: o pensamento bruniano pode ser entendido como uma espécie de gnose renascentista, uma mensagem de salvação moldada no tipo de religiosidade “egípcia”, como precisamente pretendia ser a mensagem dos escritos herméticos.

Ora, pode-se entender que a filosofia de bruno é fundamentalmente hermética, pois, Bruno era mago hermético, do tipo mais radical, com uma espécie de missão mágico-religiosa. Portanto, pode se inferir que toda tentativa de construir uma lógica platónica cristã era menos do que nada aos olhos de Bruno. No entanto, bruno considerou a religião mágica egípcia como uma experiência extática, genuinamente platónica, alias, como uma elevação em direcção ao Uno.  

4. O significado do universo de Bruno

Bruno colocou uma visão copernicana de universo, centrada na concepção heliocêntrica, e na infinidade do cosmo ligando-a a magia astral e ao culto solar tal como havia sido proposto por Ficinio, neste âmbito, um dos doutos pensou as duas lições haviam sido extraídas palavra por palavra, das obras de Marsilio Ficinio, com certeza, isto criou um escândalo, porém, a imagem que Bruno queria transmitir era de mago renascentista, alguém que propunha nova religião “egípcia” Acima de tudo Bruno admite uma “causa” ou o “principio supremo”, ao qual ele também chama de” mente sobre as coisas”, da qual deriva todo o restante, mas que permanece incognoscível para nós.

Todo universo é feito desse primeiro princípio; mas não se pode remontar do conhecimento dos efeitos ao conhecimento da causa, como não se pode remontar da visão de uma estátua à visão do escultor que a fez (REALE & ANTISERI; 2004: 115). Ora, assim como em Plotino, Bruno, também fala do intelecto universal, contudo, o entende de modo mais marcadamente imanentista, como mente nas coisas, e justamente como faculdade da alma universal, da qual brotam todas as formas que são imanentes à matéria, constituindo com ela um todo indissolúvel.

“A Deus não se pode ascender a partir dos seus feitos, como não se pode conhecer Apeles pela sua estátua. Deus está «acima da esfera da nossa inteligência» e é mais meritório chegar a ele por revelação do que tentar conhece-lo” (BRUNO apud ABBAGNANO; 2000: 135). Neste contexto, Deus, enquanto objecto de Filosofia, não é a substância transcendente, mas é a própria natureza, no seu princípio imanente, ou seja, só com a natureza, ele é a causa e o princípio do mundo: “causa, no sentido de determinar das coisas que constitui no mundo, permanecendo distinto delas; princípio, no sentido de construir o próprio ser das coisas naturais. Mas em qualquer coisa não se distingue da natureza” (Ibidem: 136).

Neste contexto, bruno entende a natureza como sendo o próprio Deus, ou seja, a virtude que manifesta nas coisas. Segundo Bruno, a matéria e a forma constituem uma e única identidade, que é a forma e matéria, alma e corpo, acto e potência. Portanto, essa unidade é o universo. Em última análise, Bruno faz referência a Parménides, e acredita que, o todo é uma substância única e imóvel, já não é nem a matéria nem a forma, porque é tudo, e o supremo, é o uno, é o universo.

“As formas são estruturas dinâmicas da matéria, “que vão e vem” cessam e se renovam”, precisamente porque tudo é animado, tudo está vivo. A alma do mundo está em cada coisa. E na alma está presente o intelecto universal, fonte perene de formas que continuamente se renovam (Ibidem: 115). É por esta razão que Bruno afirma a coincidência entre Deus e natureza, forma e matéria, acto e potência. Portanto, segundo o autor não é difícil ou grave, aceitar que, segundo a substância, tudo é uno.  

5. A Ideia do universo infinito

Segundo Lopes Pinto (2002: 75) O pensamento de Giordano Bruno sobre o infinito constrói-se sobre os pensamentos dos atomistas gregos e refutando o finitismo cosmológico de Aristóteles e Ptolomeu. “Para Aristóteles o mundo é constituído por oito esferas ou nove esferas, e a terra se encontra no centro, seguidas das esferas dos planetas. A última esfera é o lugar do primeiro motor e fecha o mundo e o universo (Ibidem: 80). A demais, o grego distingue mais dois conceitos: Topo e Chora, sendo o primeiro para pensar em um lugar determinado, um facto, e o segundo é determinado sem conhecimento, ou seja, “Chora” está próximo ao conceito de espaço e “Topo” ao conceito de lugar. Aristóteles usa somente o “Topo” ou seja, o lugar, onde o qual definiu com superfície do corpo continente. Ora, sobre esta noção de lugar, Bruno considera inútil, confusa, contrária em si mesma, e que a mesma prejudica a dignidade da natureza divina e universal.

A noção de lugar tem a ver com o vácuo e neste ponto ele chama Aristóteles de Sofista que faz considerações superficiais nas quais só acredita quem não tem juízo. Segundo Lopes (2010: 52) para Bruno a noção do mundo finito provoca a questão sobre o que há para além do mundo, fora do mundo, em fim, onde está o mundo. Portanto, Bruno defende a ideia de um espaço infinito, alias, essa ideia segundo o autor está em harmonia com os nossos sentidos, ou seja, segundo as nossas experiências, o universo não acaba e nem termina no vácuo. Segundo Bruno, “o universo é um espaço infinito, é um espaço sem vácuo” (Ibem:82). “Nenhum dos sentidos nega o infinito, visto que não podemos negar, pelo facto de não compreendermos o infinito com os sentidos; Mas, como os sentidos são compreendidos por ele e a razão vem confirma-lo.Somos obrigados admiti-lo (BRUNO apud SILVA; 2005: 15).

Alias, os próprios sentidos opõem o infinito, porque sempre vamos a uma coisa compreendida por outra e jamais percebe-se, nem com sentidos externos e nem com internos. O infinito é a ideia que marca concepção de Bruno, ou seja, é a marca emblemática da sua concepção, portanto, para Bruno, se a causa ou princípio primeiro é infinito, também o efeito deve ser infinito.

Ora, Bruno sustenta não só a infinidade do mundo em geral, mas a infinitude da existência de mundos infinitos semelhantes ao nosso com outras planetas e outras estrelas. Assim diz Bruno: infinita é também a vida, porque infinitos indivíduos vivem em nós. Assim como em todas as coisas compostas. O morrer não é morrer porque “nada se aniquila”. Assim, o morrer é apenas uma mudança acidental, ao passo que aquilo que muda permanece eterno (Ibidem: 116). Ora, de modo bastante inteligente, Bruno salienta que a mutação não procura outro ser, visto que tudo já existe desde sempre, mas sim procura outro modo de ser. É justamente nesse aspecto que existe a diferença entre universo e as coisas singulares do universo.

Aquele abrange todo ser e todos modos de ser, esta, cada qual tem todo ser, mas não todos modos de ser. (Ibidem: 115). No entanto, Bruno afirma que a natureza é esferifome e, ao mesmo tempo “infinito”. Quanto ao conceito de Deus Bruno apresenta as seguintes teses: Deus é todo infinito e totalmente infinito, porque é todo em tudo e totalmente também em toda parte do todo.

Como efeito derivado de Deus, o universo é todo infinito, mas não totalmente infinito, porque todo em tudo, mas não totalmente em todas as suas partes, ou de todo modo, não pode ser infinito no modo como Deus é, sendo causa de tudo em todas partes (Ibidem: 116). Com efeito, o heliocêntrico harmonizava-se perfeitamente com a sua gnose hermética, que atribuía ao sol símbolo do intelecto, um significado inteiramente particular, permitia-lhe romper a visão dos aristotélicos, que sustentava a finitude do universo.

No entanto, Bruno não vai contra a degeneração e a corrupção das doutrinas aristotélicas entre os peripatéticos, mas contra os próprios fundamentos da doutrina de Aristóteles; que julga confusas e contraditórios. Bruno ataca a metafísica Aristotélica, em particular as noções de substâncias, de causa, ato, potência, matéria e forma; mas também contra a física, sobretudo contra os conceitos de lugar, vácuo ou vazio e contra a teoria da impossibilidade do infinito. 

6. A explicação de Bruno sobre o conceito do infinito

Ora, Bruno faz o seguinte questionamento: o que existe além? Segundo Bruno, se o universo tem limites físicos que contem, então além deles não há nada, ou seja, existe o vazio (vácuo).

“O vácuo é a incapacidade de existência seja do que for, onde não existe nada não existe diferença alguma, onde não existe diferenças não existe aptidões; e provavelmente não existe aptidão alguma onde não existe coisa alguma” (BRUNO apud LOPES; 2010:84), portanto, Bruno salienta que, se o vácuo é aquilo em que nada existe, então não se pode a abandonar ao vácuo para se admitir o universo finito de Aristóteles.

Assim, na concepção Aristotélica, o vácuo seria a incapacidade de existência de qualquer coisa, não haveria aí nem lugar nem espaço. Na possibilidade da existência real do infinito, diz Bruno: (…) torna mais evidente a inconsciência de Aristóteles, que pressupõe o meio e a circunferência, pretendo que a terra ocupe o centro no finito ou no infinito. Se o universo for considerado infinito, não há, nem meio nem circunferência nem nada que ocupe o centro, porque o centro está em toda parte.

Portanto, Aristóteles tem uma concepção errada de infinito material, por considerada impossível (Ibidem: 86). Ora, Bruno afirma que o infinito tem partes finitas, porque a composição de um conjunto tem de ser proporcional a consideração desse conjunto, por isso a especulação de Aristóteles procede por fundamentos que não são naturais, querendo juntar todas as partes do infinito, sendo que o infinito não pode possuir partes. “Porque as partes de dimensão finita são as partes do finito e somente a eles podem ser todas proporcionais e por isso não podem ser consideradas partes do infinito com o qual não tem proporção” (Ibidem: 87).

No entanto afirma Bruno que as demonstrações de Aristóteles não são correctas, porque do facto de haver inúmeras partes no infinito e de entre si se sofrerem e agirem, não se segue que cada uma das acções e paixões seja infinitas, pois são entre elementos finitos. Do mesmo modo, o finito não é absorvido pelo infinito, porque acção e a recepção se dão entre partes próximas, e não no infinito como um todo. Portanto, toda demonstração de Aristóteles se volta para provar que o universo não pode ser infinito e concluir que nada existe para além do universo porque não pode haver lugar onde não há corpo sensível, do Bruno discorda. Bruno salienta que os sentidos se enganam, a razão desmente os sentidos, e é possível que o universo esteja além do que os sentidos possam perceber.  

Considerações finais

Em jeito de conclusão, salientar que bruno é tido como um dos filósofos cuja sua leitura é difícil, alias, no âmbito renascentista, certamente é mais complexo. Na sua visão sobre o universo ele diz que a infinidade do universo torna-se necessário, visto que o universo não poderia ser de outra maneira, uma vez que ele é causado por um princípio infinito e nada mais é mais que um reflexo do mesmo, apesar de ser infinito de um modo diferente. O universo é infinito porque é bom que seja assim, tanto quanto a bondade divina não poderia cria-lo de outra forma, pois é a essência divina. No entanto, Bruno acredita a existência de outros mundos infinitos como o nosso, contidos no universo infinito, fruto da infinita bondade divina. Resumindo, dizer que Bruno, com a sua visão vitalista e mágica não é um pensador moderno, uma vez que não antecipa as descobertas do século seguinte. 

Bibliografia

ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia volume 5. 4ed., Lisboa, Presença, 2000.

PINTO, Anibal. O infinito: ideias, transformações e as considerações de Giordano Bruno. São Paulo, 2002.

REALE, Giovan & ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Do humanismo a Descartes. São Paulo, Paulus, 2004. SILVA, Pedro. Introdução sobre o infinito: Giordano Bruno. São Paulo, 2005.

Revisado por Editor do Webartigos.com