A ÉTICA NA IDADE MÉDIA

 

JOSÉ MARIA MACIEL LIMA[1]

 

 

 

 

RESUMO

 

O presente artigo tem como objetivo estudar a ética na Idade Média para investigar como se davam as relações éticas neste período e compreender como eram julgadas as ações humanas na era medieval. O estudo foi realizado através de uma pesquisa bibliográfica por meio de uma abordagem qualitativa. O instrumento de coleta de dados utilizado na pesquisa foi à coleta bibliográfica. Para tanto, buscaremos compreender os escritos deixados por filósofos deste período, tais como: Santo Agostinho e Tomás de Aquino que abordam a ética em uma perspectiva dicotômica, ou seja, a relação entre homem e Deus, entre o bem e o mal, enfatizando principalmente, o problema do mal. Através deste estudo, podemos constatar que os valores éticos que habitavam a era medieval eram valores extremamente religiosos. Provavelmente não se tinham princípios éticos e morais independentes das normas estabelecidas pelo cristianismo. As ações do homem eram julgadas apenas do ponto de vista religioso. O homem agia de acordo com os mandamentos da lei de Deus. A Bíblia deveria ser obedecida a todo custo. Os julgamentos das ações humanas estavam concentrados nas mãos da Igreja Católica. Era ela que decidia se uma determinada ação estava certa ou errada, justa ou injusta. Constatamos também que os princípios de liberdade estavam baseados no princípio do livre-arbítrio, estabelecido por Santo Agostinho. O homem era livre para escolher o caminho que queria traçar. Neste princípio de liberdade é que consistia o problema do mal.

 

Palavras-chave: Idade Média. Ética. Liberdade. Homem. Deus.

 

INTRODUÇÃO

 

A Idade Média é um período marcado pela supremacia total da Igreja Católica Apostólica Românica. Sendo assim, a sociedade medieval estava à mercê das determinações da Instituição maior do Cristianismo. As decisões, de um modo geral, teriam que está em consonância com os mandamentos da Igreja que comandava a sociedade medieval. Assim, todas as produções, as criações e principalmente os valores éticos e morais teriam que ter como base os princípios fundamentais do cristianismo.

A ética tem sido discutida em diversas perspectivas, em diferentes períodos históricos. Neste trabalho, pretendemos abordar a ética em apenas um período da historia, a ética na Idade Média. Este estudo tem por objetivo investigar como se davam as relações éticas e como eram jugadas as ações humanas neste período. Primeiramente, estabelecemos o significado etimológico do termo ética. Em seguida, procuramos definir o que é ética, catalogamos vários conceitos de ética com base em alguns autores.

Por ultimo, fazemos uma abordagem sobre ética na Idade Média, enfatizando os principais problemas éticos desse período, e principalmente o problema do mal, com base na concepção de liberdade (livre-arbítrio) estabelecida por Santo Agostinho, priorizando a relação do homem com Deus, objetivando mostrar como eram julgadas as ações humanas, para então compreender como se davam as relações éticas entre os homens na sociedade medieval.

ÉTICA: uma definição para o termo

Em primeiro lugar, não podemos discutir ética sem antes estabelecermos algumas definições preliminares sobre o termo, sobre do que trata está área de conhecimento. Etimologicamente, o termo ética vem do grego derivado da palavra ethos, que diz respeito aos costumes, a conduta moral e aos hábitos dos homens em sociedade.

Baseados nisso, podemos dizer que ética é uma parte da filosofia que lida com a compreensão das noções e dos princípios que sustentam as bases da moralidade social e da vida individual. Trata-se de uma reflexão sobre o agir e o valor das ações humanas em sociedade. É uma área da Filosofia que trata dos ideais e valores que devem ou deveriam existir na convivência humana. No dizer de Boff (2003, p.11) “Ética é um conjunto de valores e princípios, de inspirações e indicações que valem para todos, pois estão ancorados na nossa própria humanidade”.

A existência humana é permeada de questionamentos de cunho ético, que na maioria das vezes requerem respostas imediatas: Posso abortar? Devo denunciar quem tentou me subornar? Posso contaminar meus semelhantes com o vírus da AIDS? Essas questões de existência fatual existem, simplesmente, e de uma realidade normativa – aquilo que deve ser. Na tentativa de transformar “aquilo que é” “naquilo que deve ser” o homem se caracteriza como um ser moral. É refletindo acerca dessas questões que Sousa (2005) nos afirma que

O homem é um ser que possui um senso ético e uma consciência moral. Isso quer dizer que constantemente ele avalia suas ações para saber se são boas ou más, certas ou erradas, justas ou injustas. Além disso, faz juízos de valor sobre o modo de ser e de agir dos demais seres humanos. Nesse sentido, é possível que a ética ilumina a consciência humana, sustenta e dirige as ações do homem, norteando sua conduta individual e social (p. 27-28).

Diante disso, podemos afirmar que a ética se preocupa diretamente com o comportamento do homem em sociedade, julgando como certa ou como errada as ações humanas. Nas palavras de Valls (1987, p. 7) “a ética pode ser o estudo das ações e costumes e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento”.

Parafraseando Vásquez (2006) a ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. A ética serve para que haja um equilíbrio e bom funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado. Neste sentido, a ética, embora não possa ser confundida com as leis materiais, está relacionada com o sentimento de justiça social. Segundo Vásquez (2006, p. 18), “ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é a ciência de uma forma específica do comportamento humano”.

A ética é construída por uma sociedade com base nos valores históricos e culturais. É uma ciência que estuda os valores e princípios morais de uma sociedade e seus grupos.

A ética se preocupa, [...] com as formas humanas de resolver as contradições entre necessidade e possibilidade, entre tempo e eternidade, entre individuo e o social, entre o econômico e o moral, entre o corporal e o psíquico, entre o natural e o cultural entre a inteligência e a vontade (VALLS, 1987, p. 56).

Pedimos licença para tecer um breve comentário sobre esta assertiva, uma vez que neste ponto é possível refletir que, sobre o uso da inteligência em relação aos preceitos éticos, o nosso agir passa pelo crivo da razão filosófica, o que pode nos levar ao controle de nossas vontades; sendo estas reveladas pelo controle de nosso instinto, caprichos e/ou desejos. Esse agir individual poderá incidir sobre o coletivo uma vez que cada sociedade e cada grupo possuem seus próprios códigos de ética. Num país, por exemplo, sacrificar animais para pesquisa científica pode ser ético. Em outro país, esta atitude pode desrespeitar os princípios éticos estabelecidos. Aproveitando o exemplo, a ética na área de pesquisas biológicas é denominada bioética.

Além dos princípios gerais que norteiam as relações sociais, existe também a ética de determinados grupos ou locais específicos. Neste sentido, podemos citar: ética médica, ética de trabalho, ética empresarial, ética educacional, ética nos esportes, ética jornalística, ética na política, etc. Uma pessoa que não segue a ética da sociedade a qual pertence é chamado de antiético, assim como o ato praticado. Dessa forma, é possível afirmar que a ética também é o respeito aos costumes gerais de uma determinada sociedade ou grupo.

Os valores éticos podem se transformar. Assim como a sociedade se transforma. Nesse sentido, o que há tempos atrás era considerado errado hoje pode ser aceito. Desse modo, uma determinada ação só seria errada apenas enquanto ela não fosse o tipo de comportamento vigente (VALLS, 1987).

A ética pode ser vista como uma reflexão acerca da influência que o código moral estabelecido exerce sobre a nossa subjetividade, e acerca de como lidamos com essas prescrições de conduta, se aceitamos de forma integral ou não esses valores normativos. Dessa forma, até que ponto nós damos o efetivo valor a tais valores. Poderíamos então sintetizar essa breve reflexão afirmando que o julgamento ético é sempre uma decisão subjetivo-pessoal do indivíduo baseado nos costumes sociais vigentes em um determinado grupo social, época e lugar.

De acordo com Chauí (2008), a filosofia moral ou a disciplina denominada ética nasce quando se passa a indagar o que são, de onde vêm e o que valem os costumes. Isto é, nasce quando também se busca compreender o caráter de cada pessoa, isto é, o senso moral e consciência moral individual. Assim, podemos dizer que o Senso Moral é a maneira como avaliamos nossa situação e a dos outros segundo ideais como o de justiça, injustiça, bom e mal.

Para concluir essa sessão, podemos dizer que a ética, é uma reflexão filosófica, puramente racional, sobre a moral. Assim, procura justificá-la e fundamentá-la, encontrando as regras que, efetivamente, são importantes e podem ser entendidas como uma boa conduta a nível mundial e aplicável a todos os sujeitos, o que faz com que a ética seja de caráter universal, por oposto ao caráter restrito da moral, visto que esta pertence a indivíduos, comunidades e/ou sociedades, variando de pessoa para pessoa, de comunidade para comunidade, de sociedade para sociedade. O objeto de estudo da ética é, portanto, o que guia a ação: os motivos, as causas, os princípios, as máximas, as circunstâncias; mas também analisa as consequências dessas ações.

Desta forma, é possível afirmarmos que violar um princípio ético exige coragem individual e que a ética, por sua vez, sofre mudanças sociais porque o individuo se propõe mudar um costume coletivo, o que por vez, pode influenciar outros indivíduos a agir sob a mesma conduta, causando (ou não) com isso, as mudanças de hábito/costumes/morais na sociedade na qual o indivíduo está inserido.

 

ÉTICA NA IDADE MÉDIA

 

A Idade Média é um período marcado pelo abandono ao racionalismo. Este, talvez seja um ponto que diferencia a Idade Media de outros períodos da história. Neste contexto, predominantemente religioso, cabe uma indagação importante: e a ética como era concebida? Como eram julgadas as ações humanas? Nem é preciso fazer uma investigação profunda para responder a esses questionamentos. É sabido que as ações humanas eram julgadas apenas do ponto vista cristã, baseado nos dogmas estabelecidos pela Igreja Católica. E o que não estivesse em consonância com os dogmas teológicos cristãos da época era considerado fora do padrão ético estabelecido pela Igreja. Assim, podemos afirmar que a ética nesse período estava a serviço dos preceitos do cristianismo, e o que não estivesse de acordo com a escritura sagrada era julgado como antiético.

[...] a ética medieval, [...] era, no fundo, um comportamento religioso, e não ético, no sentido restrito. Pois o comportamento era orientado pelos comportamentos divinos, pela autoridade religiosa e continha, neste sentido, uma certa exterioridade em relação à consciência moral dos indivíduos. [...] não se quer negar que um filosofo ou teólogo como Tomás de Aquino, por exemplo, desse uma importância fundamental à consciência moral. E o que seria esta consciência moral? Aquela voz interior que nos diz que devemos fazer, em todas as ocasiões, o bem e evitar o mal (VALLS, 1987, p. 62).

Na Idade Média, predomina a ética baseada nos dogmas do cristianismo, que abandona a ideia de que é através da razão que se pode chegar à perfeição moral, e focalizou a busca dessa perfeição no amor de Deus na boa vontade. Os valores éticos da época são valores religiosos e não éticos propriamente ditos. O homem não tem vontade própria, sente-se preso aos preceitos da Igreja católica. Vive em uma sociedade impregnada de valores religiosos e baseada no “amor” ao próximo, que incorpora as noções gregas de que a felicidade é um objetivo do homem e a prática do bem, um meio para atingi-la. “Agir eticamente é agir de acordo com o bem” (VALLS, 1987, p. 67). E esse bem só seria alcançado se fosse feita a vontade de Deus, se seguisse a escritura sagrada (Bíblia).

Os filósofos medievais herdaram elementos da tradição filosófica grega, configurando-as no interior de uma ética cristã. Para os filósofos cristãos, a natureza humana tem destino predeterminado, e Deus é o princípio da felicidade e da virtude. Os critérios do bem e do mal estão vinculados à fé e à esperança da vida após a morte, herança das teorias filosóficas grega. Santo Agostinho e São Tomás de Aquino são os principais filósofos da ética na Idade Média. O primeiro adota as teorias platônicas e o segundo veste as teorias Aristotélicas e as cristianizam, transformando

[...] a ideia de purificação da alma [...] na ideia da necessidade de elevação ascética para se compreender os desígnios de Deus. Também a ideia da imortalidade da alma, presente em Platão, foi retrabalhada por Agostinho na perspectiva cristã (COTRIM, 2006, p. 252).

Santo Agostinho fundamentou a moral cristã, com elementos filosóficos da filosofia clássica. Desse modo, a ética tinha por objetivo tornar os humanos em seres felizes, e essa felicidade só seria atingida num encontro do homem com Deus. Para ele, “Deus é bom, poderosamente e amplamente superior [...]. Mas sendo bom criou coisas boas que ele envolve e preenche” (NICOLA, 2005, p. 134). Mas se Deus é bom e quem criou o mal? Segundo Cotrim (2006) a ética agostiniana se destaca pelo conceito do livre-arbítrio, se Deus é bom, tudo que vem de Deus, também é bom, pois, Ele é o criador de todas as coisas que existe na terra, então, e o mal como se explica? Quem o criou? Para explicar a existência do mal,

[...] Santo Agostinho introduziu a ideia de liberdade como livre-arbítrio, isto é, a noção de que cada indivíduo pode escolher livremente entre aproximar-se de Deus ou afastar-se dele. O afastamento de Deus é que seria o mal (COTRIM, 2006, p. 252).

De acordo com Nicola (2005) Agostinho teoriza a existência do mal no afastamento das leis de Deus. Nas palavras do filosofo medieval, o mal seria a privação do bem. A existência do mal no universo se exprime através do pecado, que significa o afastamento da vontade humana em relação às leis de Deus. O homem é livre para escolher entre bem e o mal. A escolha pelo último seria desobedecer às leis do criador o que acarretaria no pecado, que consiste no mau uso do conceito de livre-arbítrio.

Evans apud Gallo (2006) traça quatro argumentos para explicar a existência do mal. O primeiro argumento versa o seguinte,

A explicação de que o mal é nada, mero contraste que salienta mais a bondade dos bons, uma ilusão, equivalente a dizer que, falando metafisicamente, não existe o problema do mal. Deus é bom, e tudo o que existe é bom, não existindo tal coisa chamada mal. O Deus, que, é Supremo Bem do neoplatonismo, permanece inato (EVANS apud GALLO, 2006. p. 17).

De acordo com Gallo (2006), fazendo uma análise neste fragmento acima é possível constatar que o mal não existe, o que pode haver é uma falha, uma limitação de percepção do homem que se desespera diante de coisas sem muita importância, em vez de deleitar-se com a perfeição intrínseca da criação divina. Mas, se Deus é bom e criou todas as coisas que existe no mundo, logo é possível deduzir que mal não existe. Assim, o mal se concretiza apenas com contraste do bem na nossa imaginação. Além disso, o que transparece é a falta de fé do homem que ocasionana escolha pelo caminho do mal. Ter fé e obedecer a Deus seria isentar-se de todo mal.

Assim, o mal reside apenas na cabeça dos não crentes. Para o homem que crê em Deus, e segue seus mandamentos, o mal não existe, é apenas um contraste ao bem. Dessa forma, o problema do mal não existe é apenas uma ilusão de natureza metafísica.

Uma segunda visão “centrada em Deus” admite a existência do mal como principio independente. Um moderno dualismo cristão vê a Deus empenhado em batalha contra o mal. A morte de Cristo na cruz e sua ressurreição constituem vitória contra o mal que deveria ser combatido e derrotado. A teologia “processual” considera o próprio Deus como ser limitado, lutando contra o mal, conduzindo o universo paulatinamente à ordem, envolvido em conflito onde o mal metafisicamente é, com efeito muito real (EVANS apud GALLO, 2006, p. 17).

Segundo Gallo (2006, p. 18) essa abordagem aponta “Deus como responsável pela existência do mal”. Porém, achamos que o mal como principio independente não pode de forma alguma está centrado em Deus, mas na livre escolha do homem. Desse modo, o mal, pode ser visto como um princípio subjetivo. O homem tem total liberdade de escolha entre o bem e o mal. Santo Agostinho, e os ensinamentos bíblicos enfatizam o mal como responsável por todos os desastres no mundo, mas o próprio santo Agostinho diz que, esses desastres são necessários ao universo, que o pecado não é eventual, mas sim necessário a própria existência humana. Desse modo, não têm, e nem se pode combater e até, talvez, lutar contra a extinção total do mal. Como acabar com mal se ele é necessário à humanidade? Assim, parece que o problema do mal é de cunha existencial, e não de cunho moral ou ético. No entanto, homem pode optar em fazem o bem seguindo os mandamentos da lei de Deus, ou escolher e seguir toda força existente contraria ao bem, que seja oposto a aquilo que Deus segundo a Bíblia determina como mal.

Outra análise que se pode fazer é em relação à morte de Jesus Cristo, que se constitui nesse fragmento como uma vitória contra o mal, que pode ser constatada em passagens bíblicas, pois Deus entregou seu único filho por todos os pecados do mundo. Se a consequência do pecado é o caminho do mal, então o mal não deveria mais existir, já que Jesus Cristo foi morto e crucificado para que todos vivessem e tivessem a vida eterna, o pecado já foi superado pela morte do Salvador. E porque o mal ainda existe? Esse questionamento deve servir como ponto de reflexão para nós, como filósofos. Parece que Deus se apresenta com um ser sem forças para combater o mal, com poderes limitados. Mas Deus não é o criador, o Supremo? Por que seu poder seria limitado?

Com base nessa reflexão, poderíamos dizer, de forma geral, que Deus de fato é um ser perfeito. E por ser perfeito, não erra em seus atos. E se Ele não erra o que está errado nessas proposições? Então, não é Deus que erra ou está errado, mas sim o conceito de Deus criado pelo homem que estaria ou está errado.

Uma terceira visão “centrada em Deus” afirma que Deus não pode agir errado e, portanto, tudo o que faz é bom. O problema do mal desaparecerá se assumirmos a ideia de que nada que acontece pode ser mal. Tudo, por definição, deve-se incluir na esfera do bem, mas o que parece ser o mal não é ausência completa do bem, porém é um bem em si mesmo (EVNAS apud GALLO, 2006, 19).

No dizer de Gallo (2006) neste caso, além de ocorrer um erro de interpretação, ocorre também, a impossibilidade do ser humano alcançar o “pensamento de Deus”, pois é comum vermos como mal, algo que somos incapazes de compreender como bem, por falta de capacidade, ou talvez por estarmos circunscritos na esfera material-temporal de um corpo limitado. O neoplatonismo parece ser o coautor dessa teoria.

Assim, podemos interpretar o pensamento anterior da seguinte forma: se Deus criou o mundo, e tudo que existe nele é bom, logo o mal não foi Deus que criou. O mal seria consequência da desobediência do homem em relação a Deus, que é bom, Supremo, portanto não pode agir, e nem pode fazer coisas erradas, inclinadas para o mal. Logo, não temos capacidade de interpretar as coisas corretamente, já que nada acontece para o mal, tudo conspira para o bem. Portanto, Deus é bom e sua eternidade dura para sempre. Desse modo, podemos dizer que “a bondade de Deus não é questionada, confrontada clara e abertamente. Não se apresenta uma possibilidade em que Deus é onipotente, e, ainda assim quis fazer o mal deliberadamente por pura diversão” (GALLO, 2006, p. 19). 

[...] a quarta possiblidade, uma visão do problema centrada no homem, que afirma a ideia de que a bondade teria menos valor, se fosse parte inalienável da natureza do homem. É preciso torna-se perfeito cooperando livremente com Deus. Neste ponto também estamos em terreno familiar, ainda que Agostinho cada vez mais viesse a duvidar que o homem pudesse conquistar, de qualquer forma, sua bondade por esforço próprio (EVANS apud GALLO, 2006, p.20).

Com relação essa quarta afirmativa, ao referir-se ao problema do mal, Evans apud Gallo (2006, p. 20) afirma que,

O mal é, em ultima análise irrelevante. Deus o assume em seu plano para o universo, fazendo-o trabalhar para ele. O mal é “criação” de uma criatura, nascida do abuso da vontade por parte do homem e dos anjos decaídos. Não passa de mera mordida de mosquito e não é doença horrorosa que deforme o universo. Uma visão do problema do mal centrada no homem torna o mal muito menos importante do que uma visão centrada em Deus.

As contribuições de Santo Agostinho para resolver o problema do mal são surpreendentes porque, ele sempre usa argumentos que colocam o homem como o único culpado pelo mal no mundo. Isentando Deus de qualquer contribuição para a existência do mal na terra. Pois é muito mais fácil culpar o homem, do que colocar Deus como responsável, pela maldade existente no universo. Desse modo,

Agostinho resolvera o problema do mal em um momento de inspiração e “intuição”, num instante, foi como se seu coração fosse inundado de uma luz, não podendo haver trevas. O mal seria apenas a ausência do Bem, como se diante da escuridão uma luz fosse acesa, a escuridão desapareceria automaticamente diante da presença da luz (GALLO, 2006, p. 20).

Segundo Gallo (2006) Agostinho, em suas confissões define o mal da seguinte forma, “o mal é uma força poderosa, plenamente formada e plenamente eficaz na menor das crianças, e, não obstante, o mal é absolutamente trivial. Amar o mal é amar nada” (EVANS apud GALLO, 2006, p. 21).

Para santo Agostinho, o problema do mal e dos valores éticos tem sua gênese a partir do livre-arbítrio da vontade humana. Deus nos permite escolher que caminhos queremos traçar, as opções são: obedecer e amar a Deus e viver no caminho do bem, ou desobedecer aos mandamentos da lei de Deus seguindo o caminho do mal. Desse modo, a escolha que aqui estamos discutindo se apresenta como uma escolha subjetiva individual, e talvez até racional, pois é no o mal uso da liberdade que estaria o mal. Em outras palavras, o homem é responsável pelo mal que existe no mundo, pois esse mal, é fruto da sua desobediência. Portanto, o ser criador do mal é o próprio homem. Porém, mesmo seguindo o caminho do mal, o homem pode se arrepender dos seus pecados e voltar para o caminho do bem, Deus é bondoso, infinitamente bom e perdoa os pecados do homem.

No dizer de Gallo (2006) não foi Deus quem criou o mal, mas em sua suprema bondade e sabedoria, embora pareça antagônico, deixa brecha para que o mal exista. Sobre isso, Evódio[2] questiona a Agostinho se não seria melhor para o homem se Deus não lhe tivesse dado o livre-arbítrio; indaga mais ainda: Será que o livre-arbítrio não seria um mal ao invés de um bem?

Mas quanto a esse livre-arbítrio, o qual estamos convencidos de ter o poder de nos levar ao pecado, pergunto-me se Aquele que nos criou fez bem de no-lo ter dado. Na verdade, parece-me que não pecaríamos se estivéssemos privados dele, e é para se temer que, nesse caso, Deus mesmo venha a ser considerado o autor de nossas más ações (EVANS apud GALLO, 2006, p. 24).

Santo Agostinho se manifesta justificando que não pode ser um mal, o livre-arbítrio, se foi criado por Deus, pois Ele criou só coisas boas. Desse modo, seria muito contraditório o argumento de que o livre-arbítrio seria um mal, se foi criado por Deus. Logo, qualquer justificação que traga Deus como autor de um ato, feito ou criação mal, é incompatível com a figura extremamente divina, bondosa e perfeita que é traçada para Deus como um ser Supremo.

Pois, se é verdade que o homem em si seja certo bem, e que não poderia agir bem, a não ser querendo, seria preciso que gozasse de vontade livre, sem a qual não poderia proceder dessa maneira. Com efeito, não pelo fato de uma pessoa poder se servir da vontade também para pecar, que é preciso supor que Deus no-la tenha concedido nessa intenção. Há pois, uma razão suficiente para ter sido dada, já que sem ela o homem não poderia viver retamente. Ora, que ela tenha sido concedida para esse fim pode-se compreender logo, pela única consideração que se alguém se servir dela para pecar, recairão sobre ele os castigos da parte de Deus. Ora, seria isso uma injustiça, se a vontade livre fosse dada não somente para se viver retamente, mas igualmente para se pecar. Na verdade, como poderia ser castigado, com justiça, aquele que se servisse de sua vontade para o fim mesmo para o qual ele lhe fora dada? Assim quando Deus Castiga o pecador, o que te parece que ele diz senão estas palavras: “Eu te castigo porque não usaste tua vontade livre para aquilo a que eu concedi a ti”? Isto é, para agires com retidão. Por outro lado, se o homem carecesse do livre-arbítrio da vontade, como poderia existir esse bem, que consiste em manifestar a justiça, condenando os pecados e premiando as boas ações? Visto que a conduta desse homem não seria pecado nem boa ação, caso não fosse voluntária. Igualmente o castigo, a recompensa, seria injusto, se o homem não fosse dotado da vontade livre (AGOSTINHO apud GALLO, 2006, p. 24-25).

Nas palavras do próprio santo Agostinho o livre-arbítrio é um bem si:

Ora, essas duas verdades: que Deus existe e que todos os bens vêm dele, nós já admitimos com fé inabalável. Entretanto, nós as expusemos de tal forma que a terceira verdade também se torna plenamente evidente, a saber: que a vontade livre deve ser contada entre os bens recebidos de Deus (AGOSTINHO apud GALLO, 2006, p. 25).

No dizer de Gallo (2006), o livre-arbítrio consiste, enquanto um bem, em poder aderir livremente à boa vontade, baseada na razão, em detrimento da má vontade, baseada nos instintos.

Portanto, penso que agora vês: depende de nossa vontade gozarmos ou sermos privados de tão grande verdadeiro bem. Com efeito, haveria alguma coisa que dependa mais de nossa vontade do que a própria vontade? Ora, quem quer que seja que tenha esta boa vontade, possui certamente um tesouro bem mais preferível do que os reinos da terra e todos os prazeres do corpo. E ao contrário, a quem não possui, falta-lhe, sem dúvida, algo que ultrapassa em excelência todos os bens que escapam ao nosso poder. Bens esses que, se escapam ao nosso poder, ela a vontade sozinha, traria por si mesma. Por certo, um homem não se considerará muito infeliz se vier a perder sua boa reputação, riquezas consideráveis ou bens corporais de toda a espécie? Mas não o julgarás, antes, muito mais infeliz, caso tendo em abundância todos esses bens, venha ele se apagar demasiadamente a tudo isso, coisas essas que podem ser perdidas bem facilmente e que não são conquistadas quando se quer? Ao passo que, sendo privado da boa vontade – bem incomparavelmente superior -, para reaver tão grande bem, a única exigência é que o queria! (AGOSTINHO apud GALLO, 2006, p. 25).

Contudo, há aqueles que discordam da afirmação de que o mal é resultado do livre-arbítrio da vontade humana, e assim culpam Deus que é o criador de todas as substâncias.

[...] Agostinho afirma que o responsável pelo pecado não é propriamente o livre-arbítrio, mas carência ou a falta deste. Tal argumentação evoca o princípio da consciência da escolha a que se está aderindo, a imputabilidade de culpa e responsabilidade tem relação direta com o grau de consciência da escolha que se está efetuando. Aparece aqui traço de neoplatonismo, por desprezar o corpo e a realidade material, fazendo amiúde referência indireta a São Paulo, onde “vemos como que por um espelho, mas eis que veremos face-a-face”. A liberdade plena só poderia ser alcançada depois da morte, ou seja, depois de liberta-mo-nos do corpo material que nos confunde e induz ao erro. Face-a-face com Deus seria improvável que se cometesse o erro de preferir o que é mutável e finito (GALLO, 2006, p. 26).

 Nas palavras de Gallo (2006), baseado em Agostinho o problema do mal é um problema de ordem existencial. O homem é condenado a ser livre, por isso, é dotado de escolha, logo, parece que o mal existe em função dessa liberdade.

Havia uma grande mistura, sendo o mal percebido e definido como uma só e grande força, que carecia de explicações e justificativa. No desenvolvimento de sua teoria sobre o mal, Agostinho diferencia o mal que pode-se compreender como sinônimo de pecado, e os tipos de males, com menor importância, cabendo buscar a justificativa apenas do mal que não pode ter sua origem atribuída a Deus (GALLO, 2006, p. 20).

Contudo, com a introdução do conceito do livre-arbítrio, santo Agostinho firma uma escolha individual e subjetiva, os seres humanos são livres para escolher entre o bem e o mal, o homem pode usufruir da liberdade, escolher entre o que é bom e o que é mal. Nesta perspectiva, os indivíduos são considerados moralmente responsáveis pelas suas ações, e o mal estaria situado no mau uso do livre-arbítrio. Assim, o livre-arbitrio é o meio pelo o qual o homem realiza a sua liberdade. Porém, de acordo, com a concepção cristã, cada individuo pode usar bem ou mal esse livre-arbítrio e nesse mau uso do livre-arbitrio que estaria o mal (COTRIM &FERNANDES, 2010). 

Por outro lado, o conceito de livre-arbitrio esvaziou a noção grega de liberdade como possibilidade de realização plena dos individuos em seu meio social. Em outras palavras, diminuiu a importância da dimensão social da liberdade, e esta passou a ter um caráter mais pessoal, subjetivo, individualista (COTRIM, 2006). O homem foi dotado de livre-arbítrio para que vivesse retamente e, mesmo que por meio dele pudesse fazer o mal, pois a natureza humana é boa, tal como o próprio livre-arbítrio, mas o meio influencia o homem a seguir o caminho do mal, que seria o pecado. Assim, pecar seria fugir dos princípios éticos medievais, tal como determinava a escritura sagrada.

Na filosofia agostiniana, o homem é livre, e nesta liberdade reside à possibilidade de pecar, embora não seja o pecado elemento constituinte da essência do livre-arbítrio. Assim, Deus não é o autor do mal – nem poderia ser porque, somente Dele procede toda natureza e os atributos que a conservam. O autor do mal é o próprio homem que, por vontade livre, corrompe a si mesmo, peca. Isto não significa que a vontade humana seja essencialmente má, nem tampouco os objetos do seu desejo, pois o mal não é a inclinação a algo mal em vez de algo bom, mas a renuncia de um bem superior a outro inferior, porque toda a criação e naturalmente boa, já que vem de Deus, e Ele não pode ter criado algo que conspire contrário as suas determinações divinas (COUTINHO, 2010).

O problema da liberdade adquiriu uma nova dimensão e atraiu enorme interesse no pensamento cristão, para o qual o destino não existe mais, tendo cedido o seu luagar a um Deus, Pai providente e amoroso; a natureza e a história não estão mais acima do homem, mas são colocados ao seu serviço. É o Deus das Escrituras, declara Agostinho, que nos revela que o homem tem livre escolha da vontade (MONDIN, 1980, p. 110).

Através do cristianismo, adquire-se a ideia de que possuímos uma vontade consciente para controlar as paixões, os apetites e os desejos, suplantados pelo livre-arbítrio, cujo impulso se voltaria ao pecado, sendo necessário o auxilio divino, com apoio nas leis divinas, para que o sujeito se torne um sujeito moral, surgindo à noção de dever em relação às normas de conduta. O homem passa a ser fraco, pecador, dividido entre o bem e o mal.

O cristianismo introduz a ideia de dever para resolver um problema ético, qual seja, oferecer um caminho seguro para nossa vontade, que, sendo livre, mas fraca, sente-se dividida entre o bem o mal. No entanto, essa ideia cria um problema novo. Se o sujeito moral é aquele que encontra em sua (vontade, razão, coração) as normas da conduta virtuosa, submetendo-se apenas ao bem e jamais poderes externos à consciência, como falar em comportamento ético por dever? Este não seria o poder externo de uma vontade externa (Deus), que nos domina e nos impõe suas leis, forçando-nos a agir em conformidade com regras vindas de nossa consciência?

Em outras palavras, se a ética exige um sujeito autônomo, a ideia de dever não introduziria a heteronomia, isto é, o domínio de nossa vontade e de nossa consciência por um poder estranho a nós? (CHAUI, 2002, p. 344)       

É inegavel que durante todo o período medieval o problema da liberdade foi visto numa persctiva teocêntrica; a liberdade é, sobretudo uma relação entre o homem e Deus. Para Valls (1987, p. 38) “na medida em que se convencionou chamar a Idade Média [...] o período cristão, [...] o pensamento ético que conhecemos está, portanto, todo ele ligado a religião, à interpretação da bíblia e à teologia”.

Assim, Tomas de Aquino concorda com a essência da teoria de Santo Agostinho, mas fundamenta-se em questões levantadas por Aristóteles durante a Antiguidade Clássica.

A filosofia cristã se baseia nas verdades reveladas para estabelecer o princípio regulador do parâmetro ético. Se antes a referência da moral era a pólis (para Aristóteles), o universo (para os estóicos e os epicuristas), agora Deus é a suprema verdade onde tudo é orientado para ele: a moral e a perfeição. Ainda que a filosofia estivesse a “serviço” da Teologia, como se acreditava, Agostinho e Tomás de Aquino resgatam a Filosofia Grega em suas vertentes platônica e aristotélica e submetem-na a um processo de cristianização.

A ética de Agostinho foi desenvolvida por uma ideia teológica nas categorias de ordem e de fim. É o marco de uma primeira reflexão filosófica cristã. A ordem é atribuída em um significado ontológico e ético que se articula à ideia de fim. Portanto, a ordem é o elemento que conduz o homem ao fim último: à plena realização. Tomás de Aquino foi influenciado por esta ideia agostiniana, e procurou desenvolvê-la na ideia de ato, pela qual se dá a perfeição do ser em sua ordem. Na Suma Teológica[3], Tomás de Aquino estrutura uma abordagem ética prescrita por três expoentes conceituais: a estrutura do agir ético, a estrutura da vida ética e a realização histórica da vida ética. (SILVA, 2009, s/p (grifos nossos)).

Para concluir, reforçamos dizendo que a Ética na Idade Média é marcada pela influência e regência da fé católica e suas doutrinas. Deus é identificado com o Bem, a Justiça e a Verdade, e deve ser o modelo a ser seguido. Neste contexto dificilmente se concebe a existência de teorias éticas autônomas da doutrina da Igreja Cristã, dado que todas elas de uma forma ou outra teriam que estar de acordo com os seus princípios.

No cristianismo, os ideais éticos se identificam com os religiosos. O homem viveria para conhecer, amar e servir a Deus, diretamente e em seus irmãos. O lema socrático do “conhece-te a ti mesmo” volta à tona, em Santo Agostinho, que agora ensina que “Deus nos é mais íntimo que o nosso íntimo”. O ideal ético é o de uma vida espiritual, isto é, de acordo com o espírito, vida de amor e fraternidade (VALLS, 1987, p. 44).

Em suma, os valores éticos por um longo tempo foram condicionados a religião cristã (cristianismo). A Patrística e a Escolástica são os seus representantes. Nesse período, dá-se ênfase à revelação dos livros sagrados. O Pai, o Filho e o Espírito Santo determinam as normas de conduta.  As exortações católicas mantiveram-se por longos anos. Contudo, no século XVI começou a sofrer a pressão do Protestantismo, ou seja, a reação de algumas Igrejas às determinações da Igreja de Roma. Para os protestantes, a ética não é baseada na revelação, mas nos valores éticos, examinados e procurados de per si. A revelação religiosa pertence à religião. O filósofo ético deve procurar os fundamentos ontológicos dessa disciplina, tão longe quanto lhe seja possível alcançar.

Contudo, mais uma vez ressaltamos a importância das ideias de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, que incorporam as teorias de Platão e Aristóteles sobre ética, modificando a base do comportamento ético da relação do individuo com a sociedade, definindo que a virtude se estabelece na relação espiritual e interior com Deus. Deus nesse momento é considerado o único mediador entre os indivíduos. As principais virtudes para o cristianismo são a fé e a caridade. O orgulho, a inveja e a avareza, considerados por Aristóteles como vícios, passaram a ser tratados pela ética cristã como pecados capitais.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na Idade Média, por um longo período, os filósofos cristãos fizeram da filosofia instrumento a serviço da teologia na divulgação e difusão do cristianismo. Tentaram unir a fé (teologia) a razão (filosofia). Emprestaram da filosofia clássica as teorias que norteiam o cristianismo ainda hoje. Vestiram as dogmáticas cristãs de Platão e de Aristóteles para explicar os mistérios da fé: a dualidade do mundo e do homem, a vida após a morte, o encontro do criador com a criatura e etc.. A teologia tornou-se dependente da filosofia.

O Cristianismo, desde há muitos séculos, buscou as luzes da razão para explicar melhor os mistérios da fé. Neste sentido, a razão não poderia caminhar sem a fé, pois, onde a razão humana não consegue com toda sua capacidade abarcar determinado mistério, a fé se infiltra como uma luz a iluminar e a orientar o homem, fornecendo respostas não compreendidas racionalmente.

Desse modo, não era o bastante para o homem, somente crer. Era necessário, também, que se compreendesse a fé. Não se utilizava a razão para acreditar numa verdade de forma cega e meramente inerte. Era preciso demonstrar com a razão as verdades professadas pela fé. Para tal demonstração era necessário uma lógica, uma coerência com os princípios essenciais da razão.

Os valores éticos que habitavam a sociedade medieval eram valores extremamente religiosos. Desse modo, provavelmente não se tinham princípios éticos e morais independentes. Assim, as ações do homem eram jugadas apenas do ponto de vista religioso. O homem agia de acordo com os mandamentos da lei de Deus. A Bíblia deveria ser obedecida a todo custo. Os julgamentos das ações humanas estavam concentrados nas mãos da Igreja Católica. Era ela que decidia se uma determinada ação estava certa ou errada, justa ou injusta.

Os princípios de liberdade estavam baseados no princípio do livre-arbítrio, estabelecido por Santo Agostinho. O homem era livre para escolher o caminho que queria traçar. Neste princípio de liberdade é que consistia o problema do mal.

O homem tem a liberdade de escolher entre o bem e o mal. A escolha pelo mal, consistia no mau uso da liberdade. Portanto, o pecado estaria na opção do homem pelo caminho do mal. Para santo Agostinho o autor do mal não pode ser Deus, pois sua bondade é irrefutável e inquestionável. Logo, o mal é resultado do mau uso do livre-arbítrio. Neste sentido, podemos dizer que seria o homem autor do mal, pois Deus deu-lhe o livre-arbítrio da vontade, a liberdade de escolha. Logo, o homem também é responsável pelo pecado. Na verdade, para santo Agostinho, o problema do mal se apresentava como um problema existencial, o mal estaria além das elaborações teóricas.

Para concluir, podemos dizer que nos estudos que fizemos desde os antigos gregos, até o mundo contemporâneo, podemos dizer que nenhum filósofo importante ou escola de pensamento negou os valores e ideais éticos que devem existir em uma sociedade, considerando o indivíduo um ser histórico-social.

Portanto, podemos afirmar que as concepções éticas nascem e se desenvolvem em diferentes sociedades como resposta aos problemas sociais resultantes das relações entre os homens. Os contextos históricos são elementos muito importantes para se perceber as condições que estiveram na origem de certas problemáticas morais que ainda hoje permanecem atuais.

Atualmente, caracteriza-se como um indivíduo ético aquele que não abre mão de seus interesses pessoais e de sua ética privada, e se sobrepõe à ética pública, supostamente formando uma sociedade mais balanceada e justa – ações essas individuais que vão refletir no coletivo. Mas, nos parece que não é correto afirmar que seguir a ética á risca traz justiça e equilíbrio a todos, visto que muitas vezes o principal prejudicado pode ser o próprio individuo que abriu mão de seus valores. Portanto, a ética é adaptável aos fatores tempo/espaço, cultura/religião, e que o homem, por sua vez não é hábil para definir a ética como um conceito único, pois está embutida não somente nos valores impostos pela sociedade, mas também nos valores pessoais de cada indivíduo.

Então se pressupõe que a ética é uma moeda de duas faces, visto que há uma ética para o agir individual, de decisão pessoal, e uma para a ação coletiva. Sendo que uma é o verso da outra. Portanto, inseparáveis.

REFERÊNCIAS

ARANHA, Maria Lucia de Arruda&MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. 2ª edição revista e atualizada, São Paulo, Editora Moderna, 1993.

 ARANHA, Maria Lucia de Arruda&MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo, Editora Moderna, 1986.

BOFF, Leonardo. Ética &eco-espiritualidade. Campinas-SP: Versus, 2003.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1997.

CHAUI, Marilena. Iniciação à Filosofia. Volume único, 12. ed. São Paulo: Ática, 2008.

COSTA, Marcos Roberto N. Introdução ao pensamento ético-político de Santo Agostinho. São Paulo: Loyola, 2009.

COTRIM, Gilberto & FERNANDES, Mirna. Fundamentos de filosofia. 1. Ed. São Paulo: Saraiva, 2010.

COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia: história e grandes temas. São Paulo: Saraiva, 2006.

GALLO, Luis Fernando. Livre Arbítrio: O problema do mal em Santo Agostino. Trabalho apresentado ao Curso da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial a obtenção de título de Bacharel com Licenciatura Plena em Filosofia, Pelotas, 2006. Disponível em: www.ufpel.edu.br/ich/filosofiamedieval/pdf/luis_tcc.pd. Acesso em: 04 de nov. de 2011.

JAPIASSÚ, Hilton & MARCONDES. Dicionário Básico de Filosofia. 3ª edição revisada e ampliada, Rio de Janeiro, Ed. Jorge Zahar, 1996.

SOUZA, Sônia Maria R. Um outro Olhar, Filosofia. São Paulo: FTD, 2005.

VALLS, Álvaro L. M. O que é ética. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.

VÁSQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

[1] Professor da Rede Pública de Ensino, Graduado em Letras – Português – UFPA, Inglês – UFOPA, Espanhol – UNIUBE, Licenciado Pleno em Filosofia – Especialista em Letras, Filosofia e Sociologia.

[2] O livro Livre-arbítrio se desenvolve sob a forma de um diálogo entre Agostinho e Evódio, relatando as conversas entre os dois. Quanto a Evódio, este fora a princípio militar tendo depois se dedicado às Letras. Convertido em Milão, recebe o batismo pouco antes de Agostinho. Ficou ao seu lado, após a morte da sua mãe (Mônica), em Roma, e em seguida foi para Tagaste, participar da primeira comunidade de monges. Mais tarde em Upsala, perto de Útica, na África proconsular. No livro II da obra sobre o Livre-Arbítrio Evódio, a partir do capitulo 5, 12 aparece apenas brevemente uma única vez, no capitulo 12, 46. Deve-se essa ausência ao fato de ele não ter acompanhado Agostinho até Hipona (GALLO, 2006, p. 21).  

[3] Obra fundamental de santo Tomás de Aquino e principal tratado filosófico-teológico da Idade Média (composto entre 1267 e 1274, permanecendo inacabado), toda ela centrada no problema das relações entre a razão e a fé cristã. Utilizando o quadro conceitual aristotélico, defende a autonomia e os poderes da razão no diz respeito ao domínio da experiência e das demonstrações. Tornaram-se famosas as cinco vias, as provas racionais da existência de Deus: 1) primeiro motor imóvel do universo em movimento; 2) causa eficiente deste universo; 3) ser necessário por oposição à contingência do mundo; 4) ser absoluto relativamente às coisas que apresentam apenas graus de perfeição; 5) ordenador e fim supremo do universo (JAPIASSÚ & MARCONDES, 1996, p. 256).   

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